Salto de 5 metros sobre jacarés em esgoto a céu aberto com torcida no Rio viraliza: 'Vídeo mais brasileiro'

Parkour sobre valão com jacarés mistura esporte de risco com torcida carioca Três atletas ganharam as redes com um vídeo que mostra pulos cruzando um valão...

Salto de 5 metros sobre jacarés em esgoto a céu aberto com torcida no Rio viraliza: 'Vídeo mais brasileiro'
Salto de 5 metros sobre jacarés em esgoto a céu aberto com torcida no Rio viraliza: 'Vídeo mais brasileiro' (Foto: Reprodução)

Parkour sobre valão com jacarés mistura esporte de risco com torcida carioca Três atletas ganharam as redes com um vídeo que mostra pulos cruzando um valão, no Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Sudoeste do Rio. Um salto como esse não é incomum para praticantes de parkour, mas um detalhe tornou o feito mais surpreendente: o córrego estava cheio de jacarés de grande porte. ➡️Parkour é uma prática urbana em que a pessoa se desloca de um ponto a outro superando obstáculos com o próprio corpo, de forma rápida e eficiente, podendo também ser praticada como esporte. O biólogo Marcello Mello disse, ao g1, que a região tem uma população de jacarés-de-papo-amarelo, que não costumam apresentar risco aos seres humanos. O episódio gerou uma certa comoção no bairro. Muita gente parou para assistir ao salto ao vivo. Nas imagens, moradores aparecem aplaudindo e torcendo pelos atletas. Também teve quem duvidasse deles ou brincasse sobre torcer contra. "Tamo torcendo pro jacaré", disse um homem, rindo, ao ver os rapazes se preparando para pular. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça André, realizando um "flip" Reprodução Na internet, não foi diferente: o humor deu o tom. "Torcendo pra alguém cair na água...", disse um. "Ronaldo com esse joelho tinha mais 3 copas", postou outro. "Isso era uma ideia que estava guardada na minha cabeça já há um tempo", disse o professor de parkour André Vilela, de 23 anos, em entrevista ao g1. "Eu não consigo imaginar a gente conseguir fazer um vídeo mais brasileiro do que esse. Tem um jacaré, num esgoto a céu aberto, dentro de uma comunidade, com as pessoas torcendo e como se fosse jogo de futebol!" Pulo que ganhou as redes sociais teve jacarés, esgoto e torcida Reprodução Quando ele viu vídeos de um morador do Terreirão que registra a vida dos répteis que moram no valão da comunidade, logo foi procurar o endereço. "Parecia que era um lugar saltável", disse. Pelas imagens, André achou que as características do valão – com bordas que ofereciam uma saída e uma chegada bem definidas e espaço para correr – eram favoráveis para uma manobra desse tipo. E lá foi ele, ver o ponto com os próprios olhos, junto com o colega professor Sávio Estefan, de 30 anos, o dublê Lucas Pêra, de 24 anos, e o engenheiro naval Isaac Mohamad, de 31 anos. Todos do grupo tem mais de dez anos de prática no esporte. André, pulando outro valão Reprodução Não é para amadores Diz-se que o Rio de Janeiro não é para amadores, a frase se aplica ao salto no local, com distância desafiadora e a impossibilidade de erro. Vilela faz questão de dizer que ninguém que não tenha muita prática e segurança deveria tentar reproduzir o feito. "Quando a gente estava começando os praticantes mais velhos, eles mesmos já tinham uma ideia de: cara, você chegou aqui agora, calma", disse Sávio, o mais experiente dos quatro, com 15 anos de prática. 'Preps': o estudo do salto Sávio executando o pulo que mobilizou as redes Reprodução Em um primeiro momento, eles foram fazer o que chamam de "preps" – o preparo necessário para executar um pulo com segurança. Isso envolve medir a distância a ser cruzada e treinar o salto em um lugar mais seguro, simulando as características do pulo almejado. Vilela mediu 17 pés – com o próprio pé, como fazem os praticantes de parkour. A distância, que ele nunca tinha pulado antes, equivale a uns 5 metros. O detalhe da presença da fauna carnívora no valão, que poderia desencorajar a empreitada, foi, na verdade, mais um atrativo. "A gente já pulou de um prédio para o outro", disse André. "Pular um jacaré é uma coisa inédita, sabe?" Muita gente pergunta se ele não tem medo de morrer. Ele diz que tem – e muito. "É só por isso que o salto dá certo", disse. "O medo é o principal balizador para as nossas decisões". A regra é medir, calcular, testar e só pular quando tem certeza que vai dar certo. E, para ser capaz de fazer essa avaliação, são necessários anos de treinamento. "Se você errar sua técnica – e, por isso, ela tem que estar muito boa – você morre", disse o atleta. A manobras mais arriscadas, envolvendo altura ou outros perigos, segundo o professor, representam uma parte muito pequena do esporte. Para o grupo, o que chamou a atenção e gerou o vídeo viral foi o inusitado da cena. Pera, pulando um vão entre dois pédios Reprodução "É que um salto desses, ele chama muita atenção, e por isso o parkour acaba sendo reduzido a esses momentos sensacionais que são completamente extraordinários." E esse pulo foi extraordinário, para eles, nem tanto pelo perigo, considerando que praticam um esporte radical. Vilela avaliou que, o pior cenário, o de virar comida do animal, tinha um nível de risco semelhante ao de pulos entre pontos muito altos, nos quais uma queda seria fatal. Isso ele já fez algumas vezes. Os praticantes de parkour lembram que os animais não eram o único perigo. Esgoto mais perigoso que o jacaré, diz biólogo "Sem o jacaré a gente também não ia querer cair naquela água de nenhuma maneira", disse Lucas, ou Pêra, como é conhecido. "Eu estava muito menos preocupado com o jacaré do que com a água do esgoto. E já tinha decidido que não ia tomar banho de esgoto naquele dia", emendou Sávio. Na avaliação do biólogo Ricardo Gomes, as bactérias presentes no valão podem ser mais perigosas do que os répteis. "Embora os jacarés não tenham o costume de atacar, se o menino cai na cabeça dele, ele com certeza ia levar uma dentada", disse. Nesse caso, o grande risco seria que a mordida do animal criasse um ferida profunda, que em contato com a água suja, gerassem uma infecção grave, que poderia levar até à morte. "Isso me põe para questionar, por exemplo, se a parte errada dessa situação não era o próprio esgoto estar lá sem tratamento", disse André. "Essa situação é calamitosa em vários níveis, que é o esgoto a céu aberto, não tratado, com um animal que está lá, que é o habitat natural dele, completamente depredado pela pela sociedade." Não é de hoje que o grupo pula sobre águas poluídas Reprodução Problemas urbanos Essa relação do esporte com os problemas urbanos é um tema que se repete. Uma vez, um vídeo deles acabou servindo de alerta para o poder público. Nas imagens, Pêra pulava sobre o canal da Avenida Maxwell, em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, e era possível ver que o guarda-corpo estava quebrado. Logo depois da publicação, um trecho do vídeo foi repostado por Higor Gomes, o subprefeito da região, que foi até o local, com equipes que fizeram a manutenção necessária. Mas fiscalizar a cidade não é bem a intenção dos rapazes. O negócio deles é pular e surpreender. E foi isso que eles fizeram. Voltaram ao local, no dia seguinte à primeira visita.O Lucas, André e Sávio fizeram mais treinos e, então, saltaram para valer. "O parkour é a soma do praticante com um meio", disse André. André, saltando entre duas marquises Reprodução A prática nasceu na França, e se espalhou pelo mundo inteiro. Já se fez de tudo, mas dificilmente um atleta vai encontrar pelas ruas de Paris, ou de outros grandes centros urbanos, um desafio que envolva répteis carnívoros. Só no Rio O grupo compartilha a sensação de que a interação com os transeuntes, no Rio, é muito diferente de qualquer outro lugar no mundo. A reação varia, mas costuma ser intensa. "No início, enquanto a gente não provou que a gente sabe o que tá fazendo, é sempre de rejeição", disse André. Mas, na experiência dele, quando crava o primeiro pulo, tudo muda. "Eu abracei várias pessoas que eu nunca mais vou ver, provavelmente", lembrou Pêra. No vídeo ele é o primeiro a saltar e, quando aterriza, é abraçado por quem estava em volta, como se tivesse acabado de marcar um gol de virada. André se preparando para fazer um "flip" Reprodução