Réus por ataque com coquetéis molotov contra homem em situação de rua no Rio vão a júri popular
Câmera de segurança registra momento que homem em situação de rua foi incendiado em live A Justiça do Rio decidiu levar a júri popular Miguel Felipe dos S...
Câmera de segurança registra momento que homem em situação de rua foi incendiado em live A Justiça do Rio decidiu levar a júri popular Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva e Gabriel Utrini da Veiga Carvalho Silva, acusados pela tentativa de homicídio de Ludierley Satyro José, homem em situação de rua que foi atacado com coquetéis molotov enquanto dormia em uma calçada na Zona Oeste do Rio. O crime aconteceu em fevereiro de 2025, no Pechincha, em Jacarepaguá, e foi transmitido em tempo real pelo Discord. Ludierley sofreu queimaduras de terceiro grau em 60% do corpo. Na mesma decisão que determinou que os dois sejam submetidos ao Tribunal do Júri, a Justiça manteve as prisões preventivas dos réus. Ao justificar a manutenção das prisões, a decisão destacou a gravidade do caso e a repercussão provocada pela transmissão do ataque pela internet. "Os crimes descritos na denúncia e imputados aos acusados são de extrema gravidade e geraram, na Cidade do Rio de Janeiro e, quiçá, em todo o País, grande repercussão. A transmissão, em tempo real, do crime fez com que ele chegasse ao conhecimento de muitos", diz um trecho. A Justiça também considerou que a soltura poderia causar sensação de impunidade e estimular ataques semelhantes. "A liberdade dos acusados pode repercutir negativamente na Cidade e no País, gerando a sensação de impunidade, despertando a possibilidade de que novos atos deste tipo venham a ser praticados, ao vivo e por meio de rede social, atacando pessoas que estão em situação de rua e de vulnerabilidade", afirma a decisão. ✅ Siga o canal de notícias do g1 Rio no WhatsApp ‘Só escutei o barulho e senti todo o meu corpo queimando’, lembra homem em situação de rua Ataque foi transmitido ao vivo Imagens obtidas durante a investigação mostram o momento em que Ludierley, então com 46 anos, é atacado enquanto dormia na calçada. O ataque foi transmitido ao vivo pelo Discord, aplicativo de mensagens popular entre jovens. Nas imagens, um adolescente de 17 anos, vestido de preto, acende os artefatos incendiários e os lança contra Ludierley. Miguel aparece filmando a ação. Depois do ataque, os envolvidos fogem enquanto Ludierley corre pela rua tentando apagar as chamas do próprio corpo. Ele chega a tirar a roupa para tentar se livrar do fogo. Miguel Felipe dos Santos Guimarães da Silva Reprodução Em entrevista ao g1 na época, ainda internado, Ludierley contou que acordou já em chamas. "Pouco depois da uma da madrugada, eu escutei um barulho e já senti o meu corpo queimando. Quando vi, eu estava em chamas. Apavorei, comecei a pedir ajuda, [mas] não tinha ninguém na rua. Tirei toda roupa e fiquei pelado na rua para apagar o fogo", relatou. O adolescente foi apreendido e Miguel foi preso nos dias seguintes ao crime. O menor passou a responder por ato infracional análogo à tentativa de homicídio triplamente qualificado e por armazenamento de imagens de abuso sexual infantil encontradas em seu celular. Investigação apontou desafio na internet Segundo a investigação policial, os envolvidos participavam de um grupo na internet no qual eram fomentados crimes de ódio e conteúdos de apologia ao nazismo. Na época, a polícia afirmou que o ataque teria sido praticado como parte de um desafio para que os participantes se vangloriassem diante dos demais integrantes do grupo. As investigações iniciais apontaram ainda que teria sido oferecido cerca de R$ 2 mil pelo ataque. A polícia buscava identificar quem teria oferecido o dinheiro. "Ele seria movido por um desafio de se vangloriar perante os outros participantes [da rede social], e ele teria recebido um valor em torno de R$ 2 mil por um indivíduo ainda não identificado", afirmou à época o delegado Cristiano Maia, responsável pela investigação. Horas depois do crime, as imagens começaram a circular e chegaram à Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (DCAV), que acionou o Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça. Paralelamente ao rastreamento digital feito pelos investigadores, familiares do adolescente reconheceram o jovem nas imagens e procuraram a Delegacia do Tanque. Na época, o Discord afirmou ter "uma política de tolerância zero para discurso de ódio e violência". Segundo a plataforma, as contas envolvidas foram banidas, o servidor utilizado pelo grupo foi encerrado e o caso foi comunicado às autoridades. Vítima passou por tratamento doloroso Após o ataque, Ludierley ficou internado no Hospital do Andaraí. Com queimaduras graves, teve dificuldades para falar, respirar e se movimentar. Durante o tratamento, ele precisou passar diariamente por balneoterapia, procedimento em que o paciente é sedado para que os ferimentos sejam limpos e o tecido queimado seja retirado. "Eu não desejo isso nem para o meu pior inimigo. É muita dor", disse Ludierley ao g1 na época. Mineiro de Juiz de Fora e criado em Ubá, Ludierley havia se mudado para o Rio mais de dez anos antes do ataque. Ele trabalhou como auxiliar de serviços gerais, mas enfrentou problemas com drogas e passou a viver nas ruas. Durante uma tentativa de recuperação, conheceu a mulher com quem se casou e teve um filho. Depois, voltou a usar drogas e a viver nas ruas. No hospital, disse ao g1 que pretendia reconstruir a vida depois da recuperação. "Quero ter uma vida digna, largar essa maldita droga que só come dinheiro. Quero voltar a trabalhar", afirmou. Questionado, na ocasião, sobre o que pensava dos responsáveis pelo ataque, respondeu: "A vida nos ensina muita coisa. O que se planta, se colhe. É o círculo da vida. Se planta o bem, colhe o bem. [...] Se planta o mal, colhe o mal."